A falta de creche pública não é apenas um problema de infraestrutura educacional. É uma decisão política deliberada que mantém as mulheres presas em casa, fora do mercado de trabalho e economicamente dependentes. Quando o Estado não oferece vagas em creches, ele não está apenas falhando com as crianças; ele está ativamente impedindo a emancipação feminina.
O Brasil tem uma das maiores filas de espera por vagas em creches do mundo. Segundo dados do INEP, mais de 1 milhão de crianças de 0 a 3 anos aguardam na fila por uma vaga em creche pública. Por trás de cada nome nessa lista, há uma mãe que não pode trabalhar, que não pode estudar, que não pode construir a sua independência financeira.
A matemática é cruel e simples: uma vaga em creche particular custa, em média, de R$ 800 a R$ 2.000 por mês. Para uma mulher que ganha um salário mínimo, isso representa de 60% a 150% da sua renda. É economicamente inviável. A consequência direta é que essa mulher "opta" por ficar em casa — não por escolha livre, mas por impossibilidade financeira imposta pelo Estado.
Essa "opção" forçada tem um custo imenso. A mulher que fica fora do mercado de trabalho por anos perde experiência, perde promoções, perde contribuições previdenciárias. Quando ela tenta retornar, encontra um mercado que a penaliza pela lacuna no currículo. A aposentadoria dela será menor. A dependência financeira dela do parceiro será maior. E sabemos que dependência financeira é um dos principais fatores que impedem mulheres de saírem de relacionamentos abusivos.
Como deputada federal, minha proposta central é a criação do Programa Nacional de Creches Públicas de Tempo Integral, com financiamento federal garantido e metas obrigatórias de expansão para todos os municípios. A lei deve estabelecer que mães solo têm prioridade absoluta nas vagas, e que nenhuma criança de 0 a 3 anos pode ficar sem vaga por mais de 30 dias após a solicitação.
Creche não é favor, não é assistencialismo. Creche é a infraestrutura básica para que as mulheres possam exercer o seu direito ao trabalho, à educação e à autonomia. É a fundação sobre a qual se constrói a igualdade de gênero real. Enquanto o Estado não garantir esse direito, ele é cúmplice da subordinação feminina.