O Brasil é frequentemente celebrado como o país com o maior índice de empreendedorismo feminino do mundo. Mas por trás dessa estatística aparentemente positiva, há uma realidade muito mais dura: a maioria das mulheres que "empreende" no Brasil não o faz por vocação ou por uma oportunidade de negócio identificada. Elas o fazem porque o mercado de trabalho formal as expulsou, as discriminou ou simplesmente não tem espaço para elas.
O empreendedorismo por necessidade é a face mais cruel da desigualdade de gênero no mercado de trabalho. É a mulher que foi demitida após a licença-maternidade e não consegue recolocação. É a mãe solo que não tem com quem deixar os filhos e não pode cumprir o horário rígido do emprego formal. É a mulher que sofreu assédio e saiu da empresa sem ter para onde ir. Para essas mulheres, "abrir um negócio" significa vender salgado na porta de casa, fazer bolo por encomenda ou trabalhar como autônoma sem nenhuma proteção social.
A romantização dessa realidade é uma violência simbólica. Quando o mercado e a mídia celebram a "mulher guerreira que criou o próprio negócio", eles estão, na verdade, aplaudindo a falha do Estado em garantir condições dignas de trabalho para as mulheres. Elas não são guerreiras — são sobreviventes de um sistema que as abandonou.
Como deputada federal, minha proposta é criar um programa específico de formalização e proteção social para mulheres empreendedoras por necessidade: acesso simplificado ao crédito com taxas diferenciadas, cobertura previdenciária subsidiada pelo Estado para MEIs mulheres com filhos menores de 6 anos, e um programa de mentoria e capacitação gratuito para transformar o negócio de sobrevivência em um negócio de crescimento.
A mulher brasileira não precisa de mais aplausos pela sua resiliência. Ela precisa de políticas públicas que façam com que a resiliência não seja mais necessária.