O momento do parto deveria ser um dos mais respeitados e seguros na vida de uma mulher. No entanto, para milhares de brasileiras, a sala de parto se transforma em um cenário de tortura institucionalizada. A violência obstétrica é uma das formas mais cruéis e silenciadas de agressão contra a mulher, porque ela acontece exatamente no momento de maior vulnerabilidade física e emocional, e é perpetrada por aqueles que deveriam garantir o cuidado e a vida: os profissionais de saúde e o próprio sistema hospitalar.
A violência obstétrica não se resume apenas a agressões físicas óbvias. Ela é um conjunto de práticas, atitudes e comportamentos que desrespeitam o corpo, a autonomia e a dignidade da mulher durante a gestação, o parto e o puerpério. Ela se manifesta de diversas formas: desde a recusa em oferecer alívio para a dor, passando por comentários humilhantes ("na hora de fazer não gritou, né?"), até a realização de procedimentos médicos desnecessários e sem consentimento.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa violência é a manobra de Kristeller, uma prática banida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por ser perigosa, que consiste em empurrar com força a barriga da mulher para forçar a saída do bebê. Outro procedimento comum e frequentemente realizado sem necessidade ou aviso prévio é a episiotomia, um corte feito na região do períneo que muitas vezes resulta em dores crônicas, infecções e traumas psicológicos.
Além das intervenções físicas, há a violência estrutural: a proibição do acompanhante de escolha da mulher, que é um direito garantido por lei federal (Lei nº 11.108/2005), mas que rotineiramente é negado pelos hospitais sob as mais diversas desculpas administrativas. A mulher é deixada sozinha, assustada, em um ambiente frio e hostil.
Por que isso acontece de forma tão sistêmica? Porque a medicina, historicamente, foi construída sob uma ótica patriarcal que enxerga o corpo feminino como uma máquina defeituosa que precisa ser controlada por intervenções externas. O parto deixou de ser um evento fisiológico da mulher para se tornar um procedimento cirúrgico centrado no médico.
A situação é ainda mais grave para as mulheres negras, periféricas e usuárias do SUS, que sofrem os piores índices de mortalidade materna e são as maiores vítimas da negligência e da recusa de anestesia, fundamentadas no mito racista de que "mulheres negras sentem menos dor".
Enfrentar a violência obstétrica exige uma mudança radical na política pública de saúde. Precisamos de leis mais duras que criminalizem especificamente essas práticas, de mais enfermeiras obstétricas e doulas no SUS, e, acima de tudo, de informação. A mulher precisa conhecer os seus direitos antes de entrar na maternidade. Precisa saber que tem o direito de fazer um plano de parto, de exigir anestesia, de recusar procedimentos que não foram explicados e consentidos, e de ter um acompanhante em tempo integral.
A nossa luta é para que o Estado pare de tutelar os nossos corpos e comece a protegê-los de verdade. Nenhuma mulher deveria sair da maternidade com um trauma que vai carregar para o resto da vida.